Dinâmica familiar e quarentena. Relacionamento em dupla moeda

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Todos nós, profissionais da saúde mental, estamos preocupados com os desdobramentos do panorama mundial, que nos obrigou ao Isolamento Social ou mesmo Confinamento. Gerando tantas incertezas, que criam medos e ansiedade. Todo este cenário negativo, irá desencadear de forma irreversível a problemas na psique humana.

Estamos todos com atenção focada para a saúde do corpo; e com total razão. Porém já começam a aparecer um aumento substancial de adoecimento psíquico. O ser humano é por essência, paradoxal, isto é, somos um “indivíduo de relação”. Como indivíduos, somos inteiros; e indivisíveis, mas precisamos nos relacionar.

Como bem disse Freud: “É preciso amar para não adoecer”.

Se observarmos, precisamos de dois para fazer um. Um carrega dois. Apesar do corte do cordão umbilical, os laços afetivos e emocionais nos ligam para toda a jornada da vida. Mas ainda assim; e apesar de tudo, todo excesso esconde uma falta. E no excesso do convívio familiar, nos faltarão as relações sociais, profissionais, que nos dão prazer e nos acalmam a alma.

As relações, sejam elas fraternais, sociais, românticas ou sexuais, são catalisadoras de força e vida. Definindo movimentos e criando comunidades para a construção de sociedades, produtoras de cultura.

Porém, os relacionamentos, que em psicanálise chamamos “afetos” – O quanto eu te afeto, o quanto por você sou afetado. Sobretudo, as relações íntimas e amorosas, possuem sentimentos de valores duplos. Há sempre uma carga emocional ambivalente. Com dois lados, portanto duas forças opostas e genuínas, isto é amor e ódio duelando para trazer o equilíbrio à relação.

“Ninguém pode me magoar, salvo aquele à quem eu amo”.

A face oculta do amor, pode ser a também raiva. Lidar com essa emoção tão poderosa quanto negativa, em tempos de “Confinamento” e excesso de convívio familiar. Pode fazer emergir conteúdos latentes que estavam mascarados entre as distrações do convívio social. Quando somos tolhidos, dessas “distrações” e confrontados a médio ou longo prazo com aquilo que contemos, mas escondemos de nós mesmos. Tudo isso pode se manifestar em ondas de calorosas discussões, com projeções de aspectos que são da própria pessoa. Mas ela usa da negação sobre si, para enxergar no outro, todos os pontos negativos da relação.

Costumeiramente no início de toda a paixão, oferecemos ao outro o melhor de nós. Para conquistar, modulamos comportamentos e falas, para nos afinarmos com a linguagem corporal e construir conexões mentais com o parceiro, a fim de criar o “par”. Porém, passado o tempo do estado de paixão, as máscaras inevitavelmente caem, e o personagem nos abandona, mostrando nossa essência mais legítima. Se houve, uma distorção exagerada de quem se é e de como se mostrou.  Chegará o momento em que a “cara metade”, já não é tão cara e deixará de ser metade.

Pois estamos todos inseridos num contexto inimaginável.  Fomos de forma inesperada, obrigados a nos isolar socialmente, e convivermos mais proximamente com o sistema familiar: Esposa e marido, filhos e pais, irmãos avós e etc. Algumas relações estarão diante de um caso clínico de extremos. Ou haverá uma ruptura irreversível, ou o fortalecimento da união. Conflitos e confrontos irão vir à tona, mágoas e cobranças irão emergir. Todos os conteúdos que estavam escondidos sob as camadas das ocupações da rotina diária: Trabalho, academia, shoppings, drinques, bate papos, escola das crianças e etc. Estão contidos, naquilo que não pode mais contém tanto assim: o lar.

É chegada a hora, de juntar as peças daquilo que formava uma unidade viva e dinâmica, mas funcional. Somente com a vontade dessa pequena comunidade a que chamamos “família”, será possível retornar a homeostase. Os esforços de todos serão necessários, para alcançar o bem comum. O casal precisa buscar a sintonia perdida, para que em par, ambos sejam atendidos em suas necessidades, alcançando assim o bem estar individual e do casal. É necessário uma para abrir o canal de comunicação – diálogo. Rever o contrato antigo a que chamamos casamento, inserindo novas cláusulas com o firme propósito de restabelecer a vida conjugal.

Tudo voltará ao normal, pois tudo na vida passa e esse momento também passará. Mas é necessário equilíbrio e saúde emocional, para ultrapassar esse momento. E sairmos mais maduros e fortalecidos com todo aprendizado que o momento pode nos oferecer.

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