Do Advento ao Natal: preparando a vinda do Senhor

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O tempo do Advento na liturgia da Igreja Católica diz respeito a um tempo de preparação para o Natal e marca o início do ano litúrgico, que não coincide com o ano civil. Logo, para a Igreja, o ano novo sempre começa no primeiro domingo do Advento. O advento é composto de quatro semanas, tem a cor roxa como sinal de espera, e em cada domingo se acende uma vela da coroa do advento, cada uma com uma temática própria. A primeira vela lembra a “Vigilância cristã”, a segunda a “Conversão”, a terceira a “Alegria”, e a quarta o “Faça-se”. Assim, a igreja na sua liturgia se prepara para viver as alegrias do Natal, reconhecendo que o Advento se vive em etapas, num caminho que é gradual.

Não vou aqui entrar nas searas teológicas, mas estou disposto a falar da teologia da minha própria vida, de como tem sido o meu Advento e do como me senti diante dele. Para isto, farei referências à liturgia, tentando fazer uma ligação ao como vivi estes tempos, e aqui me darei ao direito de não citar nomes, para preservar a identidade das pessoas, e se o fizer, darei nomes fictícios, para não expor ninguém.

O primeiro domingo do Advento traz a temática da vigilância: “Ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá o Senhor!” (Mt 24, 42). As duas primeiras semanas diz respeito à segunda vinda de Jesus e as duas últimas, diz respeito ao mistério de sua encarnação. Mas vou ficar com a primeira semana e discorrer do como ela me ressoou em todo este tempo.

As vezes pensamos que estamos preparando as coisas, e que tudo depende de nós mesmos, mas a verdade é que Deus mesmo nos insere neste caminho e nos mostra sua Vontade, e eu entendi o que significa esperar o Senhor que a qualquer momento se manifesta a nós. Entre a primeira vinda e a segunda vinda de Jesus há as vindas intermediárias, conforme nos narra alguns santos da Igreja, e Jesus sempre nos vem, por meio da Palavra, da Eucaristia, dos necessitados que vem até nós. Então Jesus decidiu vir até mim e meu advento fez todo sentido, como narrarei agora.

Minha paróquia onde exerço meu ministério sacerdotal como vigário é assistida pelos padres mercedários, ordem religiosa da qual faço parte. Recentemente veio a nós um casal fazer a preparação matrimonial, este casal tinha uma situação especial: ela, a noiva, padecia do mal do câncer, e tinha um grande desejo de se casar. Vivia já a um tempo com seu companheiro, não eram casados nem mesmo no civil, embora não tivessem nenhum impedimento. Ela fazia tratamentos exigentes por conta de sua saúde, e mesmo assim veio em todos os encontros de nosso itinerário catequético, composto de onze dias. Muitas vezes estava cansada por conta do tratamento, mas fazia todo o esforço, mesmo que os catequistas dissessem a ela que não precisava fazer todo aquele esforço, já que sua situação era especial. Tinha sede do sacramento do matrimônio, era uma mulher de muita fé em Deus.

Coube a mim celebrar a missa em que os noivos receberiam o certificado de conclusão do curso de noivos, mas no dia ela não apareceu, pois estava muito cansada, mas veio seu companheiro e, no dia seguinte, fui visita-la, para dar-lhe a unção dos enfermos. Era uma mulher jovem, 38 anos, seu companheiro com 32 anos, já tinham um filho de 6 anos de idade, se amavam muito. Ela estava fragilizada por sua doença, mas recebeu o sacramento de cura para o conforto de seu sofrimento. Eu conversei com um amigo bispo, que me autorizou a celebrar o casamento deles em casa, já que sua situação era um tanto complexa. A princípio ela resistiu, afinal, seu sonho era casar na Igreja, com direito a vestido de noiva, alianças, festa, musicas, e tinha em seu coração a esperança de melhorar um pouco para realizar este grande sonho.  Mas a sua situação chegou a tal ponto que não conseguia mais andar, e coube a mim ir até sua casa para assistir seu matrimônio.

O que eu encontrei? Uma casa simples, uma mãe chorosa com seu marido, que era padrasto da jovem noiva, um companheiro atencioso que não a deixava um só instante. Fomos à casa de sua mãe onde ela estava eu e os catequistas, que foram os padrinhos daquela união. A princípio ela desejou se confessar, e todos saíram do quarto para que ficássemos a sós. Depois que eu a absolvi, chamei todos no quarto para celebrar o casamento. Teve por vestido de noiva uma toalha de banho que cobriu sua nudez, já que estava deitada em seu leito só com fralda geriátrica para ficar mais a vontade por conta das dores que sentia. E esta toalha foi colocada somente no momento que entrei em seu quarto para ouvir sua confissão. Por alianças teve um crucifixo, levado pela catequista que a acompanhou, sinal máximo da Aliança de Deus com a humanidade, e eu pedi que eles beijassem a cruz, testemunhando o amor deles por Cristo que abençoava aquela união. Vi nascer um marido que estava ali, unido na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, jurando seu em amor que jamais a deixaria. Vi uma esposa que fez brotar em suas dores o amor mais genuíno e a felicidade por aquilo que esperou por tanto tempo, e depois de casados, trocaram o tradicional beijo, seguido de um lindo sorriso de alegria e também de alívio por um sonho realizado.

Coube a mim abraçar sua mãe e seu padrasto, que choravam muito, e ali meu desejo era segurá-los com tanta força naquele abraço como se eu pudesse em alguma medida consolar aquela dor que eles sentiam por ver o sofrimento daquela jovem lutadora. Me despedi deles, abençoei-os, e no dia seguinte, fui com a catequista, ajudado pela secretária, correr atrás de toda documentação para levar até o amigo bispo que me autorizou. Quanto a esposa, no dia seguinte foi internada. Fui visita-la no hospital, dei-lhe minha benção, peguei as assinaturas de seu esposo para os documentos, e levei todo o processo à Cúria diocesana.

No sábado último, dia 14, ela veio a falecer depois de tanta luta, e no domingo seguinte, na liturgia da igreja, é o domingo da alegria, terceiro domingo do advento. Como falar de alegria quando seu coração está triste? O que falar aqueles que estavam sedentos da palavra de Deus? Não resisti, e decidi contar esta história na minha homilia, que tirou soluços de muita gente, e eu entendi que alegria genuína também passa pela dura experiência da dor, e ela só é verdadeira quando a compaixão é sincera. Quais foram minhas alegrias?

A alegria de ter realizado o grande sonho daquela mulher, e que ela não morreu sem antes se casar. A de abraçar aquela situação de sofrimento e naquele momento tocar as dores do Cristo crucificado. A de acolher em mim a compaixão que me torna mais humano, e que ao relatar tudo isso não o deixo de fazer sem ter lágrimas em meus olhos. A de perceber que estou a quatro anos neste ministério, e estando aqui em Salvador, Bahia, nunca passei um único dia sem receber um abraço de alguém, ao mesmo tempo me sentindo abraçado pelo imenso amor que Deus tem por mim. A de ir ao cemitério, abraçar os familiares e escutar uma voz dentro de mim que dizia: “Aqui também é possível consolar os que sofrem!” Pessoalmente não gosto de ir a cemitérios, e apesar da fé que tenho em Deus tenho dificuldades em lidar com este limite da nossa vida biológica, mas estar ali com aquela família, senti como que uma cura de Deus, e não senti medo ou pavor, mas um amor tão grande que me preencheu.

Deus veio a mim naquela mulher fragilizada, e entendi que só é possível preparar o Natal do Senhor acolhendo Ele que nos vem naqueles que estão mais fragilizados em seus sofrimentos, afinal, o Filho de Deus se fez frágil, criança, para se colocar nos braços da humanidade, para que nossa fragilidade fosse alcançada pela Sua. Só é possível entender o mistério do Natal acolhendo nossa humanidade, pois o Filho de Deus e fez carne, não só para nos revelar Deus, mas para revelar o ser humano ao próprio ser humano. O caminho de Cristo é a compaixão que passa pela cruz, por onde ele faz conosco sua aliança indestrutível, pois nada pode derrotar o Amor, e o amor é o que nos torna aquilo que somos: imagem e semelhança de Deus.

De tudo isso só me resta gratidão, pois minha homilia do terceiro domingo gerou nos corações o desejo de muitos se confessarem e de se voltar para Deus neste natal, e também é nas confissões que novamente acolho os sofrimentos e dores de tantos que, arrependidos, vem se reconciliar com Deus e com sua própria história, e é onde agradeço a Deus por ser tão maravilhoso em se servir de mim para manifestar sua bondade, a mim que bem sei que não sou nenhum santo, mas que nestes gestos eu toco a imensa santidade de Cristo. A todos que lerem este artigo, desejo sinceramente Feliz Natal, e que esta minha humilde partilha os ajude a fazer o caminho para reanimar o amor, a compaixão e a esperança em dias melhores. Que Deus os abençoe sempre.

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