O Coronavirus e o medo da morte

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Reprodução/Jpsué Damacena/IOC/Fiocruz

A chegada violenta do Coronavirus e sua rápida transformação em epidemia mundial, traz à consciência o medo da morte e nos confronta com a fragilidade da vida.

O atual Coronavirus é uma variação da família de outro vírus do mesmo nome, detectado pelos cientistas na década de 1960 e que chegava aos humanos através do contato com animais (gatos, dromedários). Embora sem confirmação cientifica ainda, acredita-se que a doença atual veio de cobras, morcegos ou animais marinhos.

O primeiro alerta deste novo Coronavirus ocorreu em dezembro de 2019, vindo de Wuhan, uma grande cidade da China (com 11 milhões de habitantes). O surto inicial atingiu pessoas ligadas a um mercado local de frutos do mar, os quais apresentaram uma rara espécie de pneumonia. 

A primeira morte ocorreu em 9 de janeiro de 2020, naquela cidade, e, desde então, mesmo com a cidade isolada e totalmente paralisada, o vírus espalhou-se pelo mundo com grande virulência, levando a óbito aproximadamente 2.500 pessoas.

Segundo o boletim da OMS divulgado neste domingo, o número de casos confirmados pelo mundo chegou a 78.811 pessoas, sendo 77.042 desses casos da China; com uma mortalidade de 2.445 na China e 17 no resto do mundo. Nesse sentido, dados apurados pelo G1, afirmam que, além da China, já são 27 os países a confirmar casos de Coronavirus, com registros de morte na Itália, Filipinas, Japão, França, Irã e Coreia do Sul. 

Para a OMS trata-se já de uma “emergência pública internacional”, assim entendida como uma

situação grave, repentina, incomum ou inesperada, que tem repercussões para a saúde pública além das fronteiras nacionais do Estado afetado e que pode exigir uma ação internacional imediata“.

A transmissão atual ocorre de pessoa a pessoa e estudos científicos apontam que homens idosos com problemas de saúde são os mais afetados. Foram identificados sintomas como febre, tosse, dificuldade em respirar e falta de ar. Em casos mais graves, há registro de pneumonia, insuficiência renal e síndrome respiratória aguda grave.

Ainda existe muito mistério sobre a doença, o que aumenta sua áurea de mortalidade e contribui para gerar pânico, especialmente naqueles com tendência hipocondríaca.

A suspensão das atividades normais nesses países infestados, como a escola e o turismo, somado ao isolamento das cidades, ao fechamento das fronteiras e às quarentenas de quem chega ao país surpreende o mundo e aumenta o medo da doença. Pior, o cancelamento de eventos tradicionais, como o Carnaval de Veneza, agrava a realidade e chocam o mundo.

Isso ocorre porque eventos de tamanha magnitude nos confrontam com a dura e cruel realidade da transitoriedade da vida. Somos finitos e não há nada que possamos fazer contra isso. 

Todos somos vulneráveis à morte e ela pode chegar a qualquer momento. Essa é uma realidade indiscutível, só que nos esforçamos para não ver o óbvio. Criamos um véu ilusório para nos poupar de sentimentos desagradáveis e poder gozar do privilégio da vida, sem a lembrança de que, em algum momento (talvez quando menos se espere), tudo irá acabar.

Ignorar a existência da morte nos dá a segurança e a falsa ilusão de que podemos tudo, inclusive, a imortalidade.

Nos acostumamos a viver tirando a morte da vida e colocando-a de lado. A morte é sempre algo que acontece com o outro, por alguma razão à qual buscamos atribuir sentido. Como disse Freud,

no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade

Nos negamos a tirar o véu da ilusão e pensamos, por exemplo, que o idoso morre porque é velho, que quem tem um  acidente morre porque foi imprudente ou teve má sorte, que o doente morre porque seu corpo não funciona bem e que o coronavirus só ataca “o chinês que come cobra, numa cidade distante na China”. 

Usamos a negação como mecanismo de defesa para não nos sentirmos vulneráveis. Fazemos de tudo para nos convencermos de que a morte é um evento fortuito que acontece com os outros, por razões que não nos atingiriam. 

Porém, quando a verdade aparece e sacode nossa consciência com tanta força como neste caso do Coronavirus, ficamos profundamente atingidos em nossas expectativas, cientes de que a morte, até então algo distante, é real e inevitável.

O choque da morte simultânea, como no caso desta epidemia que se alastra inclusive pelos países mais desenvolvidos do mundo, revela-nos a intrínseca fragilidade humana.

E essa condição é algo que escondemos de nós mesmos, a qualquer custo, para darmos sentido à nossa vida. A própria busca de sentido na religião, na pluralidade de vidas após a morte, são formas de não aceitarmos a nossa mortalidade. 

Mas, será que vale a pena vivermos autoenganados? Será que não seria mais útil a todos nós tomarmos consciência da nossa própria finitude? 

Quem já esteve perto da morte ou quem já perdeu alguém próximo sabe que a dor profunda diante da experiência de perda é transformadora. A falta de sentido da vida em si mesma fica em evidência, o que nos conduz, geralmente, a repensar nosso modo de viver, valorizando os momentos de felicidade e a companhia dos que amamos.

Por isso, em que pese o sentimento de repulsa a toda a tragédia que o Coronavirus significa, diante da perda irreparável de vidas humanas, do sofrimento de tantas pessoas, dos prejuízos para a economia e a segurança mundial, o Coronavirus, em última instância, é também uma oportunidade.

Trata-se de uma oportunidade coletiva de crescimento pessoal. Confrontar a nossa finitude pode nos tornar mais sábios acerca das nossas limitações e nos mover a aproveitar a vida de forma mais coerente, com a nossa rápida existência terrena.

Aprendemos mais com a dor porque ela atinge em cheio nossas maiores fragilidades e essa espetada é transformadora. Um homem sábio não quer a dor e faz de tudo para evitá-la, mas, quando ela vem, ele não deixa passar essa fatídica experiência sem tirar uma boa lição. O Coronavirus tem nos forçado a percebermos que a vida é frágil e pode acabar a qualquer momento, por isso, devemos aproveitá-la da melhor forma possível.

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