O estômago nervoso de Darwin parece com o seu?

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Já ouviu falar em estômago nervoso? 

A ideia de estômago nervoso está associada a problemas estomacais, decorrentes de situações de estresse e ansiedade. 

Não é propriamente uma doença reconhecida, mas, encontra-se ligada à síndrome do cólon irritável (colite), diagnosticada pela primeira vez em 1830, pelo médico britânico John Howship, como distúrbio caracterizado por dor no estômago e crises alternadas de prisão de ventre e diarreia, causado em todo ou em parte por estresse e ansiedade. 

Alguns outros sintomas costumam aparecer em conjunto (vômitos, náuseas, indigestão, espasmos musculares etc.), aumentando a ansiedade e criando um círculo vicioso incapacitante, nos casos mais graves. O estômago torna-se o inimigo. 

Imagine essas sensações de forma incontrolável, constantes, negativas. Imagine ficar paralisado, crise após crise, ao menor sinal de estresse. Imagine os pequenos desgostos e medos diários virando seu estômago do avesso. 

A ligação entre ansiedade e estômago é tão comum que usamos uma infinidade de expressões para mostrar como o estresse aparece nessa parte do corpo. 

Quem já não sentiu “frio na barriga”, ao se apresentar em público? Até quem vive da exposição da própria imagem ao público, como a atriz Nicole Kidman, não esconde o nervosismo. 

E “vomitar de raiva”? Você se lembra de Rubens Barrichello quando foi obrigado a deixar o Schumacher passar na sua frente no GP da Áustria? Cumprir uma ordem detestável muitas vezes direciona a nossa emoção para o estômago.

A ansiedade do amor, por exemplo, nos faz “sentir borboletas no estômago”, quando a pessoa desejada se aproxima. 

Se a nossa mente e corpo estão conectados numa forte simbiose, a expressão mais imediata dessa ligação é “cérebro – estômago”. 

Isso ocorre, porque ambos estão conectados através do nervo vago, um dos maiores nervos do corpo, também conhecido por nervo pneumogástrico, que se estende do cérebro até o abdômen e está intimamente relacionado com as emoções, especialmente com a sensação de medo e a necessidade de fuga.

Segundo os gastroenterologistas, o intestino tem cerca de 500 milhões de neurônios, formando um sistema nervoso próprio do trato digestivo. Daí a facilidade de sentirmos as emoções no estômago. 

Corpo e mente vivem em harmonia, totalmente interligados. As emoções que sentimos no dia a dia aparecem em nosso corpo. Isso é chamado de somatização. O corpo sempre irá gritar quando a mente não for ouvida. 

O mal do estômago nervoso é um tipo de somatização muito comum. Antigo e democrático, não escolhe época, classe, gênero, inteligência. É cruel e frustrante.

A boa notícia é que é possível se sair bem, apesar dele. Basta olhar para os exemplos citados, para perceber que o importante é não desistir. O próprio Sigmund Freud já sofreu e aprendeu muito com seu estômago nervoso.

Aliás, ninguém representa melhor esse sofrimento e sucesso que Charles Darwin. Ele sofreu por mais de 30 anos de estômago nervoso. A história toda é contada por Scott Stossel no livro referenciado, um verdadeiro tratado sobre a ansiedade, cuja leitura recomendo.

Surpreenda-se: Darwin demorou aqueles 20 anos para escrever “A origem das espécies”, por culpa do seu estômago nervoso. 

Com base nos seus diários e cartas, os biógrafos concluíram que ele passava um terço do dia, desde os seus 28 anos, vomitando ou na cama. 

Darwin foi tratado por uma infinidade de médicos. Os sintomas eram tantos que ele tinha um “Diário de saúde”, onde anotava seus padecimentos e os momentos em que surgiam. Isso revelou, por exemplo, que o nervosismo crescia quando a sua mulher Emma se afastava. 

Seu diário incluía queixas de fadiga crônica, fortes dores de estômago, flatulência, vômitos frequentes (chegavam a se prolongar por meses), tontura, tremores, choro histérico, sensação de morte, insônia, erupções, eczema, pústulas, palpitações, dores cardíacas e melancolia. 

Ralph Colp, psiquiatra que estudou profundamente a história de Darwin, afirma que os piores períodos da doença coincidiam com estresse, ligado ao trabalho (sobre a teoria da evolução) ou à família. 

A antecipação do seu casamento e o período de espera para construção do navio (Beagle) que o levaria às Ilhas Galápagos foram momentos de enorme ansiedade e sofrimento estomacal.

A espera pela partida demorou meses. Segundo o próprio Darwin, esse foi o período mais infernal da sua vida. Ele se sentia desalentado ao pensar em se afastar da família e dos amigos por tanto tempo, o que se refletia no seu estômago. 

Durante a viagem, que durou 4 anos e 9 meses, Darwin manteve-se relativamente bem. Mas, ao voltar, sua saúde e seus nervos se deterioraram rapidamente. Ele vomitava várias vezes por dia e chegou a ficar acamado por anos.

Emoções ou eventos sociais atacavam sua ansiedade e o acometiam de tremores e ataques de vômito, motivo pelo qual abandonou os encontros sociais. Chegou a instalar um espelho do lado de fora da sua janela para poder avistar os visitantes a tempo de se esconder. 

Um dia fora de casa ou a menor perturbação da sua rotina o acamavam durante dias ou semanas. Chegou a colocar uma pia especial no seu estúdio para poder vomitar e continuar trabalhando. 

Qualquer questão relacionada ao seu livro o prostrava durante meses, de tão mal que passava. Só conseguia trabalhar, na “A origem das espécies”, 20 minutos por dia. Ele mesmo chamava o livro de “meu volume abominável”.

Quando o livro foi publicado, ele precisou se internar numa estação de águas para se recuperar do que ele chamou “viver no inferno”.

Até hoje, a saúde de Darwin é um tema de enorme importância científica para médicos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Não param de surgir artigos sobre as causas de seu mal. Existe até uma teoria que sustenta que ele seria diagnosticado, hoje, com Transtorno de pânico e agorafobia.

Dito isso, acredito que você deve estar esperançoso: se Darwin, num estado tão grave, no século XIX, não foi impedido de entrar para a história pelo seu estômago nervoso, padecer de um estômago emocionalmente fraco, no século XXI, não acabaria com ninguém.

Isso mesmo: o importante é se tratar! Um psicanalista pode te ajudar a lidar com esse padecimento crônico. O problema pode não estar no estômago e sim na mente. 

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