Qual será o futuro da religião em um mundo que está perdendo a fé?

"Só é possível a verdadeira fé e compaixão por meio desta volta de cada um a seu interior, pois é no coração, este solo sagrado intocável que se encontra a presença de Deus, que é ao mesmo tempo fonte e sede que nos impulsiona nas noites escuras da existência, certos de que a luz existe e está muito próxima de nós."

0
628

A palavra religião vem da palavra latina “religare”, que trás este sentido de fazer o elo de ligação entre o ser humano e Deus. O homem, por natureza, segundo o Catecismo da Igreja Católica, é um ser religioso, voltado a transcendência, pois está sempre se indagando sobre o sentido da vida, da existência. 

Fazendo uma leitura panorâmica das religiões, constata-se que a religião sempre foi motivo de admiração e ao mesmo tempo de divisão entre os seres humanos de qualquer nacionalidade, raça, sexo ou condição social, e muitas vezes a mesma foi colocada a serviço de buscas de poder, que muitas vezes destoava de uma linguagem de paz, concórdia, amor, fraternidade. Povos guerreavam em nome de seus deuses, deuses eram honrados com sacrifícios, muitas vezes de seres humanos, a religião muitas vezes foi colocada para servir outros interesses, como meio de manipulação das massas, e o que era para religar, na realidade estava servindo para tornar o ser humano cada vez mais alheio a si mesmo.

Mas é possível dizer que a religião é a grande culpada dos muitos males que existem neste mundo? A religião seria a fonte de tantos sofrimentos e divisões? Ou na realidade seria a má compreensão da religião como um todo que impede de enxerga-la em seus outros aspectos?

A religião resguarda algo importantíssimo no ser humano, que é a linguagem simbólica, que fala mais à alma do que qualquer explicação.

Por meio da arte, da música, na experiência individual o ser humano é convidado a elevar-se a Deus. A religião ajuda a tocar algo do mistério divino, e às vezes, o que a palavra não dá conta de expressar, o silêncio diante do mistério é capaz de alcançar o que não se consegue por nossa própria razão. Não é à toa que na tradição cristã se fala de tantos homens e mulheres, a quem a igreja chama de santos, que em sua vivência cotidiana conseguiram traduzir com suas vidas algo desta relação misteriosa que se dá na intimidade da alma humana, deste espaço aberto a transcendência, cuja sede nunca cessa. 

Houve tempos que a realidade transcendente era algo naturalmente aceitável, como a vida após a morte física, o julgamento, a vida no paraíso, no inferno, ou a purificação do purgatório. Estes temas geralmente eram cercados de medos e ameaças, e as muitas imagens de Deus eram quase sempre rodeadas de ameaças. Houve tempos que a fé explicava absolutamente tudo, e não sem motivos em outros tempos se afirmava que a teologia era a rainha de todas as ciências, e que a filosofia era a sua serva. Com o avanço histórico do pensamento filosófico e antropológico, lentamente Deus foi deixando de ser o centro das atenções para que o ser humano aos poucos fosse galgando espaço por meio da racionalidade, por meio do desenvolvimento da ciência empírica, que teve grande avanço de modo particular a partir do Iluminismo. 

Nietzsche é quem vai afirmar no “Assim falou Zaratrusta”: Deus morreu e nós o matamos! Nietzsche não estava interessado em religião, ou em afirmar ou negar a existência de Deus, pois não estava fazendo teologia, mas simplesmente expõe metaforicamente que se antes tudo se explicava por meio da fé, e que Deus era a resposta para tudo no ser humano, a partir do momento que o conhecimento científico avança, Deus vai perdendo território, já não faz mais sentido para as pessoas e a ciência com seus avanços se autoproclama capaz da verdade por si mesma por meio da técnica. 

Entra no cenário histórico duas grandes rivais: a ciência e a fé. Mas quem disse que eram rivais? Aqueles que certamente enfatizaram demais uma única forma de se enxergar a existência. Se antes a religião era a grande detentora das verdades temporais e eternas, a ciência desta vez é quem exige para si este status, de tal modo a ser capaz de dizer o que existe e não existe, e Deus, por sua vez, não sendo em si uma realidade empírica, acaba sendo descartado, já que não tem como provar pela experiência laboratorial a sua existência. Surge o fundamentalismo científico, em oposição ao fundamentalismo religioso.

Mas Deus continua sendo motivo de discussão, de debates, de ordem filosófica e teológica, de tal modo que os argumentos se esgotam e não provam nada de sua existência ou inexistência, de tal modo que tudo o que se fala de Deus é sempre a partir da fé. Sim, isto mesmo, pois para alguém afirmar que Deus existe, é preciso acreditar que ele existe, e para se afirmar que Deus não existe, é necessário acreditar que ele não existe.

Mas e a fé, como está? Qual significado ela tem para o homem de hoje? Pode-se afirmar que, apesar de todos os percalços da história, o homem continua buscando a Deus o significado que lhe ajude a enxergar a vida com outros olhos. E fé não é coisa de pessoas sem conhecimento ou instrução, todos tem acesso a fé uma vez que todos tem garantido em si o espaço aberto a transcendência. Mas a mesma fé muitas vezes é destituída de uma identidade genuína, misturando práticas religiosas com superstições, e as pessoas ainda hoje tentam instrumentalizar Deus. 

Mesmo com todo o desenvolvimento científico, o ser humano ainda busca sentido para sua vida, e em última análise, está buscando a este algo a mais que os salve de uma vida medíocre, entregue a mesmice, que não se reduza a um mero satisfazer de suas necessidades, mas antes, que os torne melhores enquanto pessoas. Muito se tem falado do amor, e do quanto ele dignifica a vida dos seres humanos, e não poucos, mesmo ateus, se admiram com a vida dos santos, que na sua vivência de fé, entregaram suas vidas para gerar mais vida, mais esperança, mais dignidade humana. Mas nem todos estão dispostos a abraçar o duro caminho da renúncia pela qual se promove a verdadeira fraternidade. 

Fé não é simplesmente acreditar em Deus, ou em uma energia, mas acima é também uma convicção que move o comportamento, a atitude.

Envolve valores que servem de bússolas a orientar as escolhas pessoais em vista do melhor, daquilo que mais realiza o ser humano, que está a serviço de torná-lo aquilo que ele é em sua melhor versão, por isso a fé implica a conversão diária em assimilar a verdade de que pertencemos a algo maior a que chamamos Deus, uma vez que a vida, cujo mistério ninguém explica, não é produto de nossas próprias mãos ou resultado de nossas escolhas, mas de uma escolha anterior a nossa, e que certamente nos pensou com amor. 

O ser humano ainda está em busca de sentido, mas quando se vive buscando esta referência de sentido em si mesmo, é semelhante a um espelho que está apontado para outro espelho: reflete o vazio. Ao passo que quando a referência é algo maior, ou seja, Deus, pode-se ver refletido aqueles valores que dignificam a todos, como a coragem de se desafiar a amar, a perdoar, a ter compaixão, bondade, empatia. Uma experiência autêntica de Deus não para na pessoa que dele experimenta, mas sempre leva ao encontro do outro, na vivência da compaixão sincera com a dor do próximo. 

A religião tem futuro? Tem, se cada um resgatar o verdadeiro sentido deste “religare”, desta conexão interna da intimidade que se dá no íntimo de cada um. Conexão esta que não pode ser sufocada pelo egoísmo, mas deve empurrar o ser humano a caminhar adiante, descentralizando-se de seu Ego para olhar a sua volta e perceber a voz de Deus que interpela. A religião salva o ser humano da alienação na medida que leva a cada um a viver a autenticidade de sua resposta diante da vida, de Deus, no seu comprometimento com a Verdade quer está buscando. Só é possível a verdadeira fé e compaixão por meio desta volta de cada um a seu interior, pois é no coração, este solo sagrado intocável que se encontra a presença de Deus, que é ao mesmo tempo fonte e sede que nos impulsiona nas noites escuras da existência, certos de que a luz existe e está muito próxima de nós.

Imagem de capa: Ric Rodrigues no Pexels


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui