SANTA DULCE DOS POBRES: CARIDADE ATIVA OU DEVOCIONISMO ESTÉRIL?

"Como será que ela se sentiria se estivesse aqui no nosso meio, com tudo o que estão fazendo com a imagem dela? Como será que Jesus se sente quando vê cristãos desencarnando seu evangelho?"

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Recentemente, dia 13 de outubro deste ano, o Brasil se alegrou pela canonização de sua mais recente santa, genuinamente brasileira, uma baiana filha de Salvador, religiosa da congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Mãe de Deus, congregação ligada à ordem dos Franciscanos menores. Dedicou-se a função de enfermeira e de professora na mesma instituição. 

Irmã Dulce era conhecida como o anjo bom da Bahia, e em vida já tinha fama de santidade, por sua bondade extremada para com os pobres, as pessoas de rua, as crianças abandonadas, as pessoas doentes. Fisicamente falando, era uma mulher muito frágil, de baixa estatura, magra, de voz fraca, às vezes com um ar um tanto infantil. Mas era uma verdadeira gigante na hora de exercer o amor ao próximo, indo ao encontro daqueles que ninguém olhava, e nisto ela nos ensina que a caridade muitas vezes consiste no esquecer de si mesmo para ir ao encontro do outro mais necessitado.

Irmã Dulce não foi uma mística aos moldes da idade média ou moderna, não teve êxtases místicos, não levitava quando estava em oração, não era visitada pelo seu anjo da guarda, Nossa Senhora ou Jesus, não tinha visões ou revelações extraordinárias, ou eventos místicos como aparecerem as chagas de Cristo no seu corpo, ou ainda nem mesmo fez nenhum milagre em vida. Era uma mulher comum, sem nada que a tornasse diferente de outras pessoas de seu tempo, exceto por um único detalhe: seu amor incansável e seu testemunho heroico de caridade, às vezes sofrendo incompreensões e injustiças. Irmã Dulce lembra muito a viúva da parábola de Jesus, que insiste com o juiz iníquo para lhe fazer justiça (Lucas 18, 1-8). Assim irmã Dulce insistia com os comerciantes para ajudar seus pobres, que não eram poucos. Nunca pediu absolutamente nada para si mesma, sempre para os outros. 

Era uma mulher inquieta, não era freira de convento, de ficar rezando o tempo todo, muito embora sua vida era uma extensão de tudo aquilo que rezava na intimidade com o Senhor, e de onde vinha a força para todo o seu labor. Certamente foi uma mulher de uma extrema sensibilidade, capaz de sentir como sua a dor daqueles que sofriam, de tocar o Cristo naqueles que podemos chamar de “os novos crucificados de nossos tempos”. Não era uma mulher de uma piedade simplória, pieguista, mas uma mulher ativa, de pés fincados na realidade, no chão da história, de onde brotava uma oração viva, oração esta pela qual ela elevava a Deus toda a dor que ela queria pessoalmente consolar. Sim, é impossível não amar este anjo bom, que nos brinda com um testemunho tão rico de amor, que começou em pequenos gestos, como o galinheiro onde ela começou atender os doentes. 

Não existe nenhuma dúvida que se tratava de uma santa, não como pensamos, mas uma santa extremamente humana, que as vezes também era enérgica, que também brigava, insistia com as pessoas, que também se irritava quando seus objetivos não eram alcançados, ou quando não era compreendida. Uma santa que nunca desistiu de amar, apesar dos muitos obstáculos que surgiram em seu caminho. Amor, ternura e bondade se conjugavam com seu temperamento forte, bravo. Se não fosse esta agressividade sadia, seria impossível fazer todo o trabalho que fez, seria impossível se entregar de corpo e alma nesta missão de amor caritativo.

Com certa decepção vejo que muitas pessoas não entenderam nada do que a irmã Dulce fez, e querem transformar nossa linda santa em mais uma “santinha de penteadeira”, com devocionismo muitas vezes cego, como forma de querer fechar os olhos para tudo o que ela realmente quis nos ensinar com a sua vida. Querem transformar Santa Dulce em milagreira, e isto se expressa nas muitas imagens que são comercializadas, bem como fotos, fitinhas… para favorecer o comércio, e nem sempre a verdadeira devoção. Quando a igreja propõe uma pessoa como santa, significa que é uma pessoa que nos ensinou algo com sua vida, que é uma pessoa que podemos também imitar no seguimento de Jesus, pois sua vida nos diz algo Dele. 

Me questiono se todo devocionismo está despertando uma maior sensibilidade para com os nossos crucificados de hoje, ou se é mais uma santa que cairá no esquecimento, já que a febre da novidade vai passar, como tudo nesta vida passa. Como será que ela se sentiria se estivesse aqui no nosso meio, com tudo o que estão fazendo com a imagem dela? Como será que Jesus se sente quando vê cristãos desencarnando seu evangelho? O devocionismo não seria uma tentativa de fechar os olhos para toda esta realidade de dor e sofrimento que nos cerca? Não seria uma forma de “espiritualizar” demasiadamente os ensinamentos do evangelho no que refere ao exercício da caridade ativa?

A devoção à Santa Dulce não encerra nela mesma, pois sua caridade foi uma extensão da caridade de Cristo a quem ela tanto imitou em seu amor pelos pobres. Ela nos ensina valores que estão caindo no esquecimento: compaixão, empatia, amor ao próximo, altruísmo, gratuidade. Santa Dulce nos mostra que o próximo é território sagrado, que deve ser venerado com a mesma piedade com que se reverencia as realidades da religião, pois ela entendeu muito bem o que ele disse: “o que fizerdes ao menor de meus pequeninos, foi a mim que o fizeste!” (Mateus 25,40). Santa Dulce nos oferece um amor afetivo e efetivo, que não se reduz ao território dos sentimentos, mas se torna visível por meio da prática de aliviar as angústias dos que sofrem.

Que seu gesto profético nos anime a amar aqueles que ninguém ama, e que nossa compaixão seja sincera, encarnada nas angústias e lamentos de nosso século. Que aprendamos dela a ver Cristo nos que padecem os mais diversos tipos de sofrimento, e com eles descobrir que toda cruz esconde uma promessa de ressurreição, que enquanto houver bondade, ainda há esperança de um mundo melhor. E se faltar a bondade no mundo, tenhamos nós a coragem de ser a bondade que falta. 

2 COMENTÁRIOS

  1. ” E se faltar a bondade no mundo, tenhamos nós a coragem de ser a bondade que falta”. Santa Dulce, em sua santa pobreza, enriqueceu a muitos. Não todos e nem em todo o mundo, mas no espaço a que ela foi reservado, aos pobres de Salvador. Excelente provocação, devocionismo estéril, infelizmente tem inundado o mundo, principalmente nosso “mundo católico”, que isso não transforme o que é católico em caótico.

  2. Lendo o artigo de Santa Dulce, me levou a refletir como ser bom cristão ou boas pessoas (santos como nós católicos almejamos) nos dias de hoje. Penso que muitas vezes achamos que nossa missão de fazer o bem está muito longe ou precisa ser algo muito grandioso, mas porque não seguir os passos dos grandes homens e grandes mulheres também na simplicidade do cotidiano? No simples fato de tratar os outros bem ou ser solícitos com quem estão perto de nós. Quem sabe mudando as nossas pequenas atitudes conseguimos alcançar grandes feitos como Nossa Santa Dulce! De pouco em pouco vamos mudando nosso jeito de ser!

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