TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE

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Personalidade pode ser definida de modo sucinto como as características individuais que correspondem a um padrão persistente de emoções, pensamentos e comportamentos.

 Os traços da personalidade têm consequências, no sentindo de que suas características estão associadas a uma variedade importante de indicadores nos níveis individual, interpessoal e social, tais como:

felicidade, saúde física e psicológica, espiritualidade e identidade; qualidade das relações familiares, amorosas e com colegas; escolha, satisfação e desempenho profissionais; envolvimento na comunidade, atividade criminosa, e ideologia política.

 A partir disso, um transtorno da personalidade (TP) pode ser caracterizado como “padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo, é difuso e inflexível, começa na adolescência ou início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento ou prejuízo”.

 É comum que pessoas com TP tenham um repertório limitado de emoções, atitudes e comportamentos para lidar com os problemas e estresse da vida cotidiana, apresentando respostas desadaptativas que levam ao sofrimento e/ou prejuízos a si ou aos outros.

Diagnóstico

Os Transtornos da personalidade são padrões psicológicos de difícil diagnóstico que exigem uma avaliação criteriosa por parte do profissional da saúde mental.

As desordens da personalidade podem ser consideradas entre os transtornos mentais mais complicados de diagnosticar e tratar. O diagnóstico é dificultado em parte pela própria natureza dos sintomas, pouco diferenciados e com fronteiras menos nítidas com a normalidade, e pela necessidade de uma avaliação longitudinal e em vários contextos.

Além disso, muitas das características consideradas para o diagnóstico são egossintônicas, ou seja, o indivíduo tem um insight limitado da natureza de suas dificuldades. Sendo assim, em geral, não identifica ou não se incomoda com o que considera componentes de “seu jeito de ser”, e por isso não há iniciativa para procurar ou há resistência para uma avaliação clínica e tratamento especializado.

Transtornos de personalidade são agrupados em A,B,C:

Grupo A (Maduros):

Transtorno da Personalidade Paranóide :

Desconfiança e suspeitas em relação aos outros, de modo que as intenções são interpretadas como maldosas, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contexto .

1) suspeita, sem fundamento suficiente, de estar sendo explorado, maltratado ou enganado por terceiros

2) preocupa-se com dúvidas infundadas acerca da lealdade ou confiabilidade de amigos ou colegas

3) reluta em confiar nos outros por um medo infundado de que essas informações possam ser maldosamente usadas contra si.

 4) Interpreta significados ocultos, de caráter humilhante ou ameaçador em observações ou acontecimentos benignos

5) Guarda rancores persistentes, ou seja, é implacável com insultos, injúrias ou deslizes

6) Percebe ataques a seu caráter ou reputação que não são visíveis pelos outros e reage rapidamente com raiva ou contra-ataque

7) Tem suspeitas recorrentes, sem justificativa, quanto à fidelidade do cônjuge ou parceiro sexual .

Transtorno da Personalidade Esquizóide :

Distanciamento das relações sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contexto.

 1) não deseja nem gosta de relacionamentos íntimos, incluindo fazer parte de uma família

 2) quase sempre opta por atividades solitárias.

3) manifesta pouco, se algum, interesse em ter experiências sexuais com um parceiro

 4) tem prazer em poucas atividades, se alguma

5) não tem amigos íntimos ou confidentes, outros que não parentes em primeiro grau

6) mostra-se indiferente a elogios ou críticas

7) demonstra frieza emocional, distanciamento ou embotamento afetivo .

Transtorno da Personalidade Esquizotípica :

Déficits sociais e interpessoais, marcado por desconforto agudo e reduzida capacidade para relacionamentos íntimos, além de distorções cognitivas ou perceptivas e comportamento excêntrico .

1) ideias de referência excluindo delírios de referência)

2) crenças bizarras ou pensamento mágico que influenciam o comportamento e não estão de acordo com as normas da subcultura do indivíduo

3) experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões somáticas

4) pensamento e discurso bizarros

5) desconfiança ou ideação paranóide

6) afeto inadequado ou constrito

 7) aparência ou comportamento esquisito, peculiar ou excêntrico

8) não tem amigos íntimos ou confidentes, exceto parentes em primeiro grau

9) ansiedade social excessiva que não diminui com a familiaridade e tende a estar associada com temores paranóides, em vez de julgamentos negativos acerca de si próprio.

GRUPO B (Imaturos):

Transtorno da Personalidade Antissocial:

 Desrespeito e violação dos direitos alheios, que ocorre desde os 15 anos

 1) incapacidade de adequar-se às normas sociais com relação a comportamentos lícitos, indicada pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção

2) propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer

3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro

4) irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas

5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia

6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou de honrar obrigações financeiras

7) ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado alguém .

Transtorno da Personalidade Borderline :

Instabilidade dos relacionamentos interpessoais, da autoimagem e dos afetos e acentuada impulsividade, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos

 1) esforços frenéticos no sentido de evitar um abandono real ou imaginário

 2) Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização

3) Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da autoimagem ou do sentimento de self

4) Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa

5) Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automulilante

 6) Instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor

 7) Sentimentos crônicos de vazio

 8) Raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva

 9) Ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou graves sintomas dissociativos

*Orientações básicas para o manejo de pacientes com transtorno de personalidade borderline:

• Aprimorar o conhecimento e a compreensão sobre as apresentações clínicas comuns e comportamentos apresentados pelo paciente, de modo a desenvolver maior empatia e atitude terapêutica.

 • Validar os sentimentos do paciente, nomeando a emoção que for identificada, como medo do abandono, raiva, vergonha, e assim por diante, antes da abordagem dos “fatos” da situação. Ter seu sofrimento reconhecido auxilia o paciente a reagir de modo mais racional.

 • Evitar julgar, criticar e confrontar o paciente, mantendo atitude compreensiva e de ajuda (o que exige do profissional reconhecimento e controle de suas próprias emoções).

• Estabelecer e comunicar claramente limites, mantendo-os de modo firme e coerente.

• Definir planejamento do tratamento junto com o paciente, familiares e outros profissionais; incluindo estratégias para situações de urgência e manejo de comportamentos de risco.

• Agendar consultas regulares, para que não dependa do paciente estar “mal” para ser atendido. Contato e atenção programados podem evitar comportamentos desadaptativos (como autoagressões e outras atuações) para obtenção de cuidado.

• Evitar polifarmácia e grande volume de prescrições de medicamentos potencialmente tóxicos e causadores de abuso e/ou dependência. Em caso de risco suicida, restringir o acesso Grandiosidade em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia, às medicações, buscando identificar um cuidador que possa ficar responsável por guardá-las e fornecê-las ao paciente.

Transtorno da Personalidade Histriônica :

Excessiva emotividade e busca de atenção, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos .

1) desconforto em situações nas quais não é o centro das atenções

2) a interação com os outros frequentemente se caracteriza por um comportamento inadequado, sexualmente provocante ou sedutor

3) mudanças rápidas e superficialidade na expressão das emoções

4) constante utilização da aparência física para chamar a atenção sobre si próprio

5) estilo de discurso excessivamente impressionista e carente de detalhes

6) dramaticidade, teatralidade e expressão emocional exagerada

7) sugestionabilidade, ou seja, é facilmente influenciado pelos outros ou pelas circunstâncias 8) considerar os relacionamentos mais íntimos do que realmente são .

Transtorno da Personalidade Narcisista:

que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos .

1) sentimento grandioso acerca da própria importância p. ex., exagera realizações e talentos, espera ser reconhecido como superior sem realizações à altura)

2) preocupação com fantasias de ilimitado sucesso, poder, inteligência, beleza ou amor ideal

3) crença de ser “especial” e único e de que somente pode ser compreendido ou deve associar-se a outras pessoas ou instituições) especiais ou de condição elevada.

4) Exigência de admiração excessiva

5) Presunção, ou seja, possui expectativas irracionais de receber um tratamento especialmente favorável ou obediência automática às suas expectativas

6) É explorador em relacionamentos interpessoais, isto é, tira vantagem de outros para atingir seus próprios objetivos

7) Ausência de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e necessidades alheias

8) Frequentemente sente inveja de outras pessoas ou acredita ser alvo da inveja alheia

9) Comportamentos e atitudes arrogantes e insolentes

GRUPO C (Maduros):

Transtorno da Personalidade Dependente :

Necessidade global e excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso e aderente e a temores de separação, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos .

1) dificuldade em tomar decisões do dia-a-dia sem uma quantidade excessiva de conselhos e reasseguramento da parte de outras pessoas

2) necessidade de que os outros assumam a responsabilidade pelas principais áreas de sua vida

3) dificuldade em expressar discordância de outros, pelo medo de perder apoio ou aprovação. 4) Dificuldade em iniciar projetos ou fazer coisas por conta própria em vista de uma falta de autoconfiança em seu julgamento ou capacidades, não por falta de motivação ou energia)

 5) Vai a extremos para obter carinho e apoio, a ponto de oferecer-se para fazer coisas desagradáveis

6) Sente desconforto ou desamparo quando só, em razão de temores exagerados de ser incapaz de cuidar de si próprio

 7) Busca urgentemente um novo relacionamento como fonte de carinho e amparo, quando um relacionamento íntimo é rompido

8) Preocupação irrealista com temores de ser abandonado à própria sorte .

Transtorno da Personalidade Esquiva :

Inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade à avaliação negativa, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos.

 1) evita atividades ocupacionais que envolvam contato interpessoal significativo por medo de críticas, desaprovação ou rejeição

2) reluta a envolver-se, a menos que tenha certeza da estima da pessoa

3) mostra-se reservado em relacionamentos íntimos, em razão do medo de passar vergonha ou ser ridicularizado

 4) preocupação com críticas ou rejeição em situações sociais

 5) inibição em novas situações interpessoais, em virtude de sentimentos de inadequação

6) vê a si mesmo como socialmente inepto, sem atrativos pessoais, ou inferior

 7) extraordinariamente reticente em assumir riscos pessoais ou envolver-se em quaisquer novas atividades, porque estas poderiam provocar vergonha .

Transtorno da Personalidade Obsessivo Compulsiva :

Preocupação com organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal, à custa de flexibilidade, abertura e eficiência, que se manifesta no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos .

1) preocupação tão extensa com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários, que o alvo principal da atividade é perdido

2) perfeccionismo que interfere na conclusão de tarefas

3) devotamento excessivo ao trabalho e à produtividade, em detrimento de atividades de lazer e amizades

 4) excessiva conscienciosidade, escrúpulos e inflexibilidade em questões de moralidade, ética ou valores

 5) incapacidade de desfazer-se de objetos usados ou inúteis, mesmo quando não têm valor sentimental

6) relutância em delegar tarefas ou trabalhar em conjunto com outras pessoas, a menos que estas se submetam a seu modo exato de fazer as coisas

7) adoção de um estilo miserável quanto à gastos pessoais e com outras pessoas; o dinheiro é visto como algo que deve ser reservado para catástrofes futuras

 8) rigidez e teimosia.

Os transtornos “imaturos” de personalidade (grupo B) mostram uma melhora ao longo do tempo, enquanto os mais “maduros” (grupos A e C) são caracterizados por um curso mais crônico. Além disso, um grupo de pacientes com esquizofrenia de início tardio ou transtorno delirante tem um TP do grupo A-  pré-mórbido, indicando uma evolução mais desfavorável com agravamento do quadro clínico em alguns casos.

Tratamento:

Um aspecto fundamental relativo ao tratamento dos TP é o reconhecimento de que há possibilidades de tratamentos viáveis e efetivos, a fim impedir que o estigma prejudique o acesso dos pacientes às  abordagens terapêuticas disponíveis.  Desta forma, reforça-se a necessidade de engajamento do paciente e que o mesmo execute um papel ativo em seu tratamento para que, com isso, resultados favoráveis sejam atingidos evitando  sofrimento.

A psicoterapia é a base do tratamento, cuja eficácia fundamenta-se em uma boa aliança terapêutica, com participação ativa de terapeuta e paciente de forma colaborativa. Várias técnicas psicoterapêuticas específicas têm sido desenvolvidas, mas o modelo de uma abordagem mais estruturada e direta sugere apresentar melhores resultados de modo geral, incluindo o desenvolvimento de habilidades de autorreflexão, mentalização, regulação emocional e enfrentamento de estresse , Psicoeducação, terapia de grupo, terapia familiar e outras abordagens psicossocias também representam recursos terapêuticos úteis.

A medicação deve ser considerada junto aos riscos inerentes à sua utilização. Deve-se evitar a prescrição de benzodiazepínicos, pelo potencial abusivo e efeito paradoxal com desinibição do comportamento, reservando sua indicação para situações de crise com elevada ansiedade e optando-se por benzodiazepínicos de meia-vida mais longa.  Além disso, é importante adequar o esquema de receituário no acompanhamento desses pacientes para evitar que eles tenham acesso a grande quantidade de medicamentos.

deve-se ter cuidado com a prescrição de medicamentos com alto potencial de toxicidade, como antidepressivos tricíclicos e lítio, principalmente para pacientes com ideação suicida. O Psiquiatra indicará o melhor para o seu paciente.

A Psiquiatria e a Psicologia, são necessárias para o bom manejo desse tipo de transtorno.

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